quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ano passado, nos Estados Unidos, foram lançados dois livros que tentam mostrar que os jovens da atual geração são mais burros e alienados que os jovens das décadas anteriores. Os títulos (traduzidos) dos livros são: A Era da Não-Razão Americana e A Mais Estúpida Geração: Como a Era Digital Idiotiza Jovens Americanos e Compromete Nosso Futuro.

Pra melhor explicar a situação, o título do segundo livro deveria ser assim: FALHA ÉPICA: Como a Geração Atual de Jovens Está Anos-Luz à frente de Nós, Adultos Que Não Entendem Suas Piadas Internas e Memes de Internet Atualizados Diariamente e, Tragicamente, Começamos a Realizar que Não Temos a Mínima Idéia de Como Reverter esta Situação.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Bolinhas de gude

Um menino pega algumas bolinhas de gude e vai brincar com elas em um terreno baldio. Ao chegar lá, começa a jogá-las para o alto, batê-las entre si, e ele se diverte com isso, de forma realmente despreocupada.

Vendo aquilo, um homem chega ao garoto e lhe diz para fazer um buraco no chão, e que ele poderia tentar acertar as bolinhas dentro dele. Logo após isso, aproxima-se outro homem e diz ao garoto que ele tem uma idéia melhor. Cavando uma série de pequenos buracos ao longo do terreno, ele poderia pegar uma bolinha e tentar acertá-la em todos os buracos de forma seqüenciada, como no golfe. Então o primeiro homem disse que aquilo daria mais trabalho, e que a sua solução era mais conveniente.

Enquanto os homens discutiam, chegou um terceiro homem, dizendo ao garoto que ele deveria ignorar as idéias daqueles dois, e que a sua idéia era melhor que a de ambos. Então recomendou ao garoto que desenhasse um círculo no solo, separasse uma bolinha para si e colocasse todas as outras dentro daquele círculo, e que ele tentasse tirar as bolinhas de dentro do círculo atirando nelas a bolinha de sua mão. Após mal acabar de falar isso, o terceiro homem foi surpreendido por um quarto, dizendo que seria melhor que fosse desenhado um triângulo ao invés de um círculo. Os dois primeiros homens ouviram tudo aquilo e começaram a discutir com os outros dois. Um quinto homem que se aproximou começou a discutir com os outros quatro, mesmo sem saber do que estavam falando. E assim se prosseguiu com outros homens que ali chegavam. Transtornado com aquela situação, o garoto pegou suas bolinhas e foi embora, fato que os homens nem perceberam enqüanto continuavam discutindo.

Essa é minha maneira de explicar porque odeio filosofia.

sábado, 24 de maio de 2008

Segredos

Segredo. sm. 1. O que não pode ser revelado; sigilo. 2. Assunto, manobra, negócio, conhecido só de uns poucos. 3. Confidência. 4. Mistério, enigma.

Toda pessoa tem segredos. Aquele papo de "minha vida é um livro aberto" é uma grande e gorda mentira. Segredos são necessários para o bom convívio. Se todos soubessem de tudo que você faz, ninguém teria interesse pela sua vida, e você provavelmente passaria a maior parte de seu tempo sozinho. É assim que funciona. Por isso que pessoas misteriosas são tão fascinantes. É porque elas guardam muita informação. Área 51, Maçonaria, Cientologia, Lost. Se estas coisas hoje são consideradas interessantes pela maioria das pessoas, é porque há segredos envolvidos. Sempre tem que existir o oposto de algo. Se há o preto, é porque tem o branco. Se houve Einstein, também houve Kléber Bambam. Para um Brad Pitt, temos um Tião Macalé. Se existe a curiosidade, é porque há o segredo.

Nem preciso dizer que soltar um segredo alheio é um ato abominável. Mas há momentos em que você sente a necessidade incontrolável de expelir um segredo seu, por querer compartilhá-lo com um amigo de confiança ou simplesmente porque não consegue se segurar. E quando isso acontece, normalmente a maioria das pessoas comete um erro gravíssimo, que é não analisar os vínculos ao redor. Se o seu segredo é estar apaixonado por uma pessoa e tem a necessidade de falar disso com alguém, não escolha o(a) melhor amigo(a) desta pessoa. Se você quer fazer uma surpresa para um amigo, não conte para a namorada ou esposa dele. Sabe por quê? Porque estas pessoas tem vínculos maiores com o alvo do que você, e elas não acharão justo guardar de uma pessoa tão querida uma informação tão importante. Ou seja, seu segredo provavelmente vazará, e a culpa é toda sua.

Há motivos mil para se criar um segredo, mas o principal é o medo. Medo de que deixem de gostar de você por causa de tal segredo, medo de causar discórdia entre as pessoas, de se perder bens materiais, de se tornar alvo de opinião pública e conversas maliciosas, e assim vai. E o mais engraçado é que esses motivos que prendem um segredo quase sempre são os mesmos que se usam para soltá-lo.

E isso torna bastante difícil gerenciar um segredo, por ser um grandioso instrumento social. Segredos podem trazer pessoas para perto de você, como também afastá-las. É uma ferramenta de poder. Se você guarda todos os segredos que ouve ao mesmo tempo em que guarda todos os seus, meus parabéns. Você tem o mundo em suas mãos.

Eu até gostaria de dar algumas dicas de como você pode conseguir fazer isso. Mas não posso. É segredo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O apogeu do preconceito

Na astronomia, chama-se de zênite o ponto mais alto que um corpo celeste atinge em sua órbita, a partir da vista do observador. É o seu apogeu. Significado que justifica perfeitamente o atual momento do Zenit St. Petesburgh, time de futebol russo que venceu nesta semana o Glasgow Rangers na final da Copa da UEFA, o segundo torneio mais significativo da Europa. Time modesto, sem tradição, que graças a altos investimentos financeiros e um ótimo técnico, é hoje um dos times mais falados no universo do futebol. Mas não é só por isso que andam falando dele.

Estamos falando de um time cuja torcida é racista. Se hoje o plantel de jogadores é composto unicamente de brancos, é porque seus torcedores não aceitariam a entrada de um jogador negro, fato assumido pelo treinador do Zenit, Dick Advocaat. "Eu ficaria feliz em poder contratar qualquer jogador, mas a torcida não gosta de negros. Honestamente, eu não sei porque se importam tanto com a cor da pele", afirmou em uma coletiva de imprensa. E o comentário que circula é que a atitude racista também parte de membros da diretoria do clube, mesmo que seus assessores de imprensa neguem a todo custo.

Pra aumentar a salada, tudo isso está acontecendo em dias de uma forte política anti-racista por parte da UEFA, que faz questão de exibir cartazes e mais cartazes em jogos importantes do circuito europeu, e espalhar a mensagem por todos os veículos de mídia possíveis. Sendo assim, como podem então permitir que um time cuja torcida é assumidamente racista participar de uma final de um torneio tão importante, e não tomar atitude alguma? Pois atos ofensivos já foram testemunhados no mesmo torneio, nos jogos do Zenit contra o Olympique de Marselha, que tem jogadores negros. Coisas extremamente ignorantes e grotescas, como por exemplo, imitar o som de macacos.

E a situação inevitavelmente fere a imagem de um time batalhador, que mesmo sendo considerado um dos patinhos feios no início da competição, cresceu como um colosso ao longo dela, goleando times muito superiores - como o atualmente devastador Bayern de Munique -, chegando à final e a vencendo. Isso sem contar com grandes estrelas do futebol mundial. Não há um nome ali que chame a atenção do ouvinte casual. O que tornou o Zenit campeão foi, de fato, uma equipe bem montada e um ímpeto enorme de vencer. Mas também é um time jovem, que tem receio de entrar em conflito com sua nova grande torcida e perder esse rico apoio, mesmo que seja um apoio descaradamente racista.

É provável que no final desta temporada o Zenit recrute jogadores negros para afastar toda essa nuvem de afirmações de cunho racial. Se isso não acontecer, infelizmente, vai ser a confirmação de que o clube compactua com a torcida, ponto para a estupidez e a arrogância. Eu bem que poderia fechar esse texto com alguma piadinha, mas a coisa toda é tão lamentável que nem dá.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Certo e errado?

A igreja neopentescostal Renascer em Cristo é uma presença constante na pauta dos jornais escritos e falados do país nos dois últimos anos. Seu casal fundador, Estevam e Sônia Hernandes, responde por várias acusações judiciais, entre elas falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Isso não é novidade pra ninguém, como também não é a situação parecida que ocorreu há mais de 10 anos atrás, com o Pr. Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Graças a estas duas principais ocorrências, a imagem do cristão evangélico brasileiro não é das melhores, sem contar outras aberrações que circulam ou já circularam na mídia nacional.

Pelo visto, muita gente não se importa com o fato de seus mentores espirituais serem criminosos. É uma igreja movimentada, com mais de dois milhões de membros. E sem dúvida seu membro mais famoso é Ricardo Izecson dos Santos Leite, que atende pelo apelido de Kaká. Sempre que tem a oportunidade, Ricardo assume sua ligação com a Renascer em Cristo em entrevistas.

Eu respeito muito o Ricardo. É um baita jogador de futebol, tanto que foi eleito o melhor do mundo em 2007, tanto pela FIFA quanto pela revista francesa France Football, que anualmente entrega um prêmio semelhante ao da FIFA - porém mais significativo. Visivelmente é um rapaz que teve uma boa educação familiar e cristã, e demonstra isso no seu comportamento dentro e fora de campo. Já teve problemas sérios de saúde, que foram superados. Um atleta-modelo, e um legítimo vencedor aos olhos do mundo.

Às vezes, como cristãos, nos sentimos constrangidos de falar o que somos e assumir posturas concretas em certos contextos sociais, pois sabemos que isso vai gerar algum desconforto. Traços de insegurança e comodismo, heranças de nossa natureza humana. Ricardo não esconde sua fé em Deus. Pelo contrário, ele a mostra para o mundo inteiro, seja em gestos, camisetas ou falas. E isso é muito bonito, um exemplo a ser seguido. Mas, infelizmente, Ricardo não é muito esperto.

Imaginemos o grande Kaká visto por algum de seus jovens fãs em alguma outra parte do mundo, que assiste todos seus jogos e procure todo tipo de informação a respeito dele. Ao ver sua comemoração após o fim do jogo da conquista da Copa dos Campeões pelo Milan, lê uma mensagem escrita em inglês na camiseta branca por baixo do uniforme, que o jogador exibe com orgulho. Talvez ele não fale inglês, então depois de pesquisar na internet ou conversar com alguma outra pessoa, descobre que a mensagem significa "Eu pertenço a Jesus". "Bom, então Kaká é cristão? Que interessante!", pensa ele. Dias depois, o mesmo rapaz lê em um site que o grande Kaká foi chamado para inquérito pelo Ministério Público de seu país por estar relacionado a uma igreja cujos líderes estão sendo acusados de vários crimes. "Mas peraí, ele não é cristão? Como pode estar ligado a esses caras? Meu ídolo é um hipócrita?"

Ricardo talvez não pense nisso. Ele talvez não se dê conta de que está contribuindo em larga escala para o desvirtuamento da fé cristã. Por mais legítima que seja sua crença e seus atos, ele está conscientemente vinculado à pessoas que de forma alguma podem ser chamadas de cristãs, e contribuindo para que se alicerce cada vez mais o senso comum de que "crente é tudo pilantra". O que deixa no ar um dilema do qual realmente não sei dar uma opinião definitiva. A visão positiva de suas atitudes ofusca a negativa, ao mesmo tempo que basta um mínimo de bom senso para realizar que estar associado ao casal Hernandes é sinônimo de conformidade com o ilícito. Com que postura pode se confrontar alguém por fazer a coisa certa, tão certa, mas do jeito errado?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O mundo vai acabar daqui a dois meses

E nem estou me referindo a uma profecia de Nostradamus ou de alguma seita maluca. Muito menos aos 4 Cavaleiros do Apocalipse ou a Terceira Guerra Mundial. O grande agente destruidor de nosso mundo como o conhecemos dessa vez se chama Bóson de Higgs. Estou falando de uma mera partícula, que talvez nem exista. Mas se ela resolver dar as caras, poderia nos trazer alguns probleminhas, mesmo que as chances disso sejam bem reduzidas.

A mais de 150 metros abaixo da superfície, em uma porção de terra que se divide entre França e Suíça, existe algo que seria digno de fazer parte das 7 novas maravilhas do mundo. O Grande Colisor de Hádrons, ou simplesmente LHC. Trata-se do maior acelerador de partículas do mundo, com seus 27 quilômetros (!!) de circunferência. Um acelerador de partículas, como o nome já sugere, é um dispositivo que usa campos elétricos para propelir partículas carregadas a uma altíssima velocidade, fazendo isso em um ambiente controlado. Isso possibilita a análise e estudo destas partículas, levando à compreensão de suas origens e aplicações. E nos estudos atuais da Física, o bóson de Higgs é uma das peças mais intrigantes.

Eu, sem dúvida alguma, não sou a melhor pessoa pra explicar a parte complicada. Mas vou tentar.

O tal do bóson, glamurosamente apelidado de God Particle, teoricamente daria as respostas às principais questões que justificam o salário de boa parte de nossos queridos cientistas, bem como consolidaria definitivamente os padrões da Física contemporânea. Entre estas perguntas, as mais importantes são:

1) Por que a gravidade é bem mais fraca que as outras forças fundamentais (eletromagnetismo e força nuclear)?
2) As medidas mais precisas da massa dos quarks continuariam a ser consistentes em relação ao que vemos no padrão atual?
3) Por que há aparentes quebras de simetria entre matéria e antimatéria?
4) Qual a natureza da matéria escura?
5) Vai ter "Rambo 5"?

Essas indagações tiram meu sono e fazem de minha vida um verdadeiro inferno de incertezas desde que eu era um bebê banguela e chorão, e FINALMENTE terei paz em meu coração após todas estas perguntas, entre muitas outras, serem respondidas. Isso se eu - e você - não nos transformarmos em um cocô intergaláctico segundos depois.

Para que o lindo, charmoso e instigante bóson de Higgs dê o ar de sua graça em um terno Armani feito sob medida, o LHC precisa gerar uma quantidade cagalhônica de energia, aproximadamente 10 gigajoules, o equivalente a uma detonação de duas toneladas e meia de TNT. Mas esse é o menor dos problemas, pelo menos para nós, que estamos bem longe da França/Suíça. O que realmente vem inquietando muita gente é que, ao se ligar o aparelhozinho, ele dê origem a micro-buracos negros, ou matérias desconhecidas chamadas de strangelets. Estes strangelets podem entrar em fusão e se tornarem mais estáveis que a matéria ordinária, transformando todo o planeta em uma grande bola de nada.

Mesmo que boa parte dos cientistas mais conceituados de nossa sociedade digam que as chances disso acontecer são mínimas, não há fiofó que não dê uma trancadinha, ainda mais quando se tem noção da magnitude de todo o projeto. Sir Martin Rees, renomado astrofísico inglês, afirmou que a chance de uma catástrofe definitiva acontecer é de uma em 50 milhões. Só que há um problema, senhor cientista espertão-do-bigodão: nós não estamos falando das chances de Cristiano Ronaldo fazer um gol contra na final da Champions League, ou do Metallica voltar a tocar metal de verdade. Estamos falando da INTEGRIDADE FÍSICA de todo o planeta, ou seja, nesse caso, uma chance em 50 milhões ainda é MUITO!

O LHC iria ser ativado agora em maio, mas devido a incidentes técnicos, nós só vamos ser pulverizados em julho. Ainda dá tempo de roubar um banco, seqüestrar a Scarlett Johansson e completar minha coleção do Rush.

NOTA RECENTE: nossa pulverização foi adiada mais algumas vezes. Na última vez (nov/2009), um dos eletroimãs refrigeradores do LHC entrou em curto porque um passarinho que veio do futuro tentou boicotar o projeto jogando um pedaço de baguete em cima dele. Humanidade, ouça o aviso do passarinho.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Paizinho" e "Sweet Baby Jesus"

Se você freqüenta uma igreja, talvez já tenha ouvido alguém se referir a Deus como "Paizinho" em uma oração. Se não ouviu, são grandes as chances de isso acontecer um dia. E sempre que ouço, não consigo deixar de achar esquisito.

Sem dúvida isso surgiu como uma maneira mais carinhosa de se falar com Deus. Creio que seja válido, e de modo algum se torne algo que interfira na vida espiritual de quem assim o faz. É válido, mas também inapropriado. É tão inapropriado quanto um réu chegar pra um juiz e chamá-lo de "tio". Claro que, nesse caso, geraria uma represália imediata. No final das contas, simplesmente não consigo deixar isso passar despercebido. Ainda mais pra mim, pois ao ouvir essa expressão, o que me vem à mente é um velho barrigudo deitado em uma rede, tomando uma Coca e lendo jornal.

Mas não é o tipo de coisa que, a meu ver, gera discussões prolongadas. O que não se pode dizer do equivalente norte-americano do "Paizinho", o "Sweet Baby Jesus". Esse sim, é bizarro.

Sim, Jesus quando bebê já era o Filho de Deus. Mas era um bebê. Não engatinhava pelas ruas curando doentes e pregando sermões. Então o intento de se orar a Jesus enqüanto ele ainda tinhas poucas preocupações no colo de sua mãe não é algo que pode se chamar de normal. Tanto que isso foi satirizado no filme Talladega Nights (ou, se preferir, Ricky Bobby A Toda Velocidade), com Will Ferrell. É um de seus filmes mais engraçados, talvez só perca para O Âncora, sua obra máxima. Seu personagem, Ricky Bobby, um ignorante piloto da NASCAR - assim como a maioria deles - está na mesa prestes a tomar o café da manhã com a família quando sua esposa o pede para fazer uma oração de agradecimento. Então ele vai orando e divagando quanto ao Bebê Jesus, que está "em sua manjedoura, assistindo seus vídeos educativos, aprendendo novas cores e formas", etc. Pode parecer gratuito, mas tem suas origens. Da mesma forma que aqui o "Paizinho" é digno de levantar algumas sobrancelhas, lá na América de cima o "Sweet Baby Jesus" incomoda alguns cristãos. Talvez mais do que aqui.

E poderia ser bem pior. Ainda não ouvi nenhum "Papi".

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Não despreze o ócio

É sério. O ócio pode lhe trazer coisas boas. Eu gosto de escrever, e se não fosse pelo fato de eu estar atualmente ocioso em boa parte de meus dias, eu não teria tempo para colocar algo aqui. É nos momentos de ócio que procuramos fazer as coisas que gostamos. Mantemos nossos hobbies, lemos um livro, escutamos boa música, até mesmo deitados no sofá podemos chegar a um resultado produtivo. Pensamentos são como livros, precisam estar bem organizados e distribuídos para que você os ache quando precisar de um deles.

Estamos constantemente cercados de workaholics que nos olham atravessados quando estamos à toa em algum momento, ou fazendo algo diferente do binômio trabalho/estudo. Não há como culpá-los, eles pensam assim porque foram educados desta maneira. Quando nos lembramos daquele clássico conto de La Fontaine, a formiga é sempre o exemplo a ser mostrado, e assim deve ser. Mas também há um pouco de cigarra em todos nós, deixe-a mandar às vezes. Aproveite bem o seu ócio e ache algo mais para alegrar sua vida.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O valor do palavrão

Quem é religiosamente doutrinado ou simplesmente foi muito bem educado pelos pais cresceu ouvindo que não é de bom tom "beber, fumar e falar palavrão". Quanto a beber e fumar, concordo plenamente, pois são hábitos que, tornando-se vícios, prejudicam o bem-estar do indivíduo. Já quanto a falar palavrão, penso que ele entrou meio que de gaiato na história. Acho que o problema maior não está no palavrão em si, mas sim no propósito por trás dele.

Eu sou totalmente contra o uso do palavrão para ofender alguém. E digo uma ofensa legítima, não aquela conversa informal entre amigos. Palavras têm muito poder. Basta uma palavrinha mais agressiva e pronto, um relacionamento pode ser arruinado para sempre. Porém de modo algum desprezo o valor cômico e literário dos "termos de baixo calão".

Como surge um palavrão, afinal de contas? Como se faz para promover uma palavra - ou até mesmo uma palavrinha - ao status de palavrão? Em que momento da história a palavra "piroca" deixou se ser apenas a referência a um homem calvo e se tornou um dos verbetes mais temidos pelos pais de filhas adolescentes e professoras de ensino fundamental? Em nossa língua, "piroca" é uma palavra foneticamente engraçada, e talvez isso tenha contribuído para seu significado chulo se tornar mais popular que o original.

Exatamente esse é o principal motivo pelo qual defendo a maioria dos palavrões: seu teor cômico. Quem é especialista em utilizar o teor cômico destas gemas é Jô Soares. Em seus dois livros mais populares, O Xangô de Baker Street e O Homem que Matou Getúlio Vargas, ele usa de maneira extremamente sábia os palavrões, pingando-os em momentos aleatórios do livro, transformando passagens pouco importantes em algo verdadeiramente engraçado. E não desprezo esta mesma aplicação do palavrão em nosso dia-a-dia.

E não é só isso. Há certos sentimentos que só podem ser verdadeiramente expressados através de um palavrão. Dar uma topada em uma pedra, não gritar um PUTAQUEPARIUMEUPÉ e ao invés disso ficar pensando em uma outra palavra mais bonitinha pra gritar enqüanto sente dor é um movimento falso, uma medida absolutamente paliativa. Quem estiver perto de você e realizar o quanto foi dolorosa a topada certamente não vai lhe condenar pelo palavrão proferido, pelo menos em seu íntimo.

Por outro lado, reconheço que também não se pode descambar pro lado do exagero, fazendo com que alguém, por falar muito palavrão, ganhe a fama de boca-suja, desbocado. Esse é o tipo de reputação da qual é muito difícil de se desvencilhar, e que ninguém sensato quer para si. Mas se o palavrão for colocado em seu devido lugar e hora, torna-se uma ótima ferramenta tanto no falar quanto no escrever, bem como instrumento de catarse. Porque tem coisa que é foda de agüentar, viu?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Saiantesqueamalacaia!

Quem freqüenta minha casa, principalmente depois das 11 da noite, conhece meus vizinhos indiretos. Os chamo assim pois estão do outro lado do muro do condomínio e são bem assíduos. Mas costumeiramente os chamamos de "os crente doido". Provavelmente é um grupo pentecostal, cada dia mais numeroso. E barulhento.

A varanda do meu apartamento dá de frente para um terreno baldio, que nas tardes se torna campo de futebol. E à noite, igreja. Esse grupo, como disse, costuma chegar tarde da noite e ali fazer seu culto a Deus. Até aí, tudo bem. Tranqüilo. O problema começa quando vêm a gritaria e o abençoado pandeirinho. Que na incrível acústica de um terreno aberto em uma clareira no mato e no silêncio da noite, exerce o mesmo impacto sonoro que sente um vizinho do Antares.

Se fosse só um ALELUIA aqui ou um GLORADEUS ali, seria compreensível. Um momento de euforia, nada mais. Acontece em toda igreja, até nas mais pacatas. Mas tem dias que a coisa fica caótica. É tanta gritaria e pandeirinho que a impressão que tenho é que baixou uma entidade de candomblé ali só pra tirar onda com eles, dando início a um duelo mortal entre o pastor raivoso e a pombagira rodopiante. Sem contar o comportamento desvairado de alguns deles, que me faz lembrar os bons tempos do Van Halen. Sinceramente, não sei como minha mãe consegue dormir, já que a janela de seu quarto também é frontal ao terreno. E eles costumam ficar até umas 2, 3 da manhã.

E a pior parte é que não posso reclamar, por vários motivos. O principal deles é que são meus irmãos de fé. Eu nunca poderia chegar lá com eles e dizer: "Olha, vocês estão louvando a Deus de forma errada. A maneira certa é como eu faço lá na minha igreja". Seria tão ou mais absurdo. Não poderia nem pedir pra uma viatura da polícia baixar o sarrafo neles, pois estaria incitando violência. Sem contar que é um terreno baldio, até descobrir quem é o dono dele pra que fique a par do que acontece ali, já encontraríamos uma igreja construída, com jardinzinho e tudo. Eu já comentei algumas vezes que minha vontade era conseguir uma daquelas pistolas marítimas de sinalização e dispará-la no meio da galere. Mas sei lá, do jeito que eles são, iriam achar que é um sinal de Deus e no dia seguinte a gritaria seria dobrada, e o pior, com DOIS pandeirinhos! De um lado, temos a perturbação da ordem pública. Do outro, temos a liberdade de culto. É uma situação complicada. E sem resolução aparente. Deixando claro que não alimento nenhum tipo de ódio quanto às igrejas superpentecostais e seus membros. Como disse, são meus irmãos de fé e devo respeitá-los como tal. Mas que às vezes se comportam de maneira destrambelhada, ah, isso é verdade.

O jeito é continuar tentando tirar o lado divertido da coisa. Continuo aprendendo novos verbetes daquele dialeto bisonho.

Pense, pero no mucho

Pensar é bom. Nos faz entender o porquê das coisas. Nos ajuda a prever erros ou evitar que eles se repitam. É essencial separarmos pequenos momentos diários para pensarmos em nossa vida, e o que estamos fazendo com ela. Mas também podemos nos abster de algo que poderia ser útil ou agradável a nós, pelo excesso de pensamento.

Para mim a chave de uma ótima vida está em duas coisas: um relacionamento constante com Deus e a infindável busca pelo equilíbrio. Você não conseguirá um sem ter o outro, estão diretamente ligados. É uma balança que precisa ser constantemente vigiada para que fique alinhada exatamente no centro. Não é nem um pouco fácil, mas também não teria graça alguma se fosse. O bom relacionamento com Deus você consegue querendo. Confie sua vida a Deus que as coisas acontecem. É uma fórmula simples, sem mistérios. Tendo isso, a busca pelo equilíbrio se torna bem mais fácil. Mas, ainda assim, é metade do caminho. Os outros 50% dependem de você. É aí que entra o pensamento e as conseqüências geradas por pouco ou muito dele. E é um caminho com muitas armadilhas, um passeio em Angola.

Se você pensar pouco antes de tomar alguma atitude, muito provavelmente quebrará a cara. E se continuar no mesmo padrão, quebrará a cara novamente e mais outra vez. Se pensar muito, é bem provável que vá se livrar de muitos problemas. E em meio a esses problemas, algumas bem-aventuranças junto. Talvez você tenha perdido um grande emprego por ter chegado à conclusão que não atingiria o rendimento esperado. Talvez esteja solteira por não achar nenhum cara que se encaixe em sua lista de pré-requisitos, ou você, rapaz, está solteiro por achar que ela nunca ia querer algo com você. Fazer aquela pós-graduação em outra cidade ficou fora de questão, pois você teria que procurar um lugar pra morar, um novo emprego, recomeçar um círculo de amigos, enfim, "muito complicado". Ou até mesmo tenha arquivado permanentemente sua vontade de tocar piano pois "é um instrumento muito difícil, requer anos de treino".

E enquanto isso os dias vão passando, sua barba vai crescendo, sua coluna encurvando e seu ânimo murchando. Pense, pense sempre. Mas se você pensar pra sempre, as coisas nunca mudarão. Quebre a cara sem medo, é bom de vez em quando.

domingo, 27 de abril de 2008

O mundo ligeiro e suas conseqüências

Certamente você já ouviu este discurso. O mundo globalizado, a sociedade de informação, o crescimento tecnológico, blablablá...mas você já parou pra pensar, de verdade, como isso afeta sua vida? Ou melhor, como você pode ser uma cria desse mundo, se tiver seus 20 anos ou menos?

Eu sou uma pessoa que não tem carro. Principalmente por ainda não ter condições financeiras de manter um sem ter que abrir mão de algumas posturas pessoais. Mas onde quero chegar é que, em muitas vezes que peguei uma carona no carro de amigos e parentes, não consegui deixar de reparar em como muitas pessoas se comportam ouvindo uma estação de rádio. Foram poucas as vezes que ouvi uma música inteira. Na metade de uma música, troca-se de estação a fim de procurar algo melhor, e passando por todas as estações umas 3 vezes seguidas, parece que nada agrada ao ouvinte. A situação se torna ainda mais bagunçada quando várias pessoas estão dentro do carro. É como se ouvir uma música por 3 minutos - e isso porque estou falando de música comercial - fosse uma tarefa que exigisse muita atenção, mais do que uma pessoa comum conseguisse suportar.

Quando vamos abrir nosso e-mail na internet, se a página levar mais de 1 minuto pra carregar já começamos a bufar e cutucar os dedos na mesa. Esperar cinco minutos em uma fila, então, é um castigo que nem o mais vil criminoso mereceria. Sentar em uma sala de espera de um consultório médico é o mesmo que entrar no quarto do Hannibal Lecter. Nós estamos sempre apressados. MUITO apressados. E nessa situação, onde termina a culpa do mundo agilizado pelas facilidades da tecnologia e começa nossa intolerância?

Eu tenho 27 anos, então devo dizer que a maior parte de minha vida já foi vivida nesse contexto das coisas ágeis e de pronta resposta. Mas toda vez que eu vejo uma pessoa xingando a mãe de outro alguém em uma fila pois a mesma não anda e ela "tem mais o que fazer", eu fico me perguntando o que ele tem de tão importante que verdadeiramente não possa esperar mais 2 ou 3 minutos pra fazer. Se hoje condenações por enforcamento ainda fossem de prática comum e o pai do indivíduo fosse um encrenqueiro, eu até acreditaria no dito popular. Mas quase sempre, não é o que acontece.

Tudo isso reflete em nosso comportamento, em nossa espiritualidade e até mesmo em nossa saúde. Casos de ansiedade crônica estão se tornando cada vez mais comuns, conheço pessoas que ficam próximas de um ataque nervoso pelo fato do ônibus estar levando mais de 10 minutos pra aparecer. Casais brigam porque um dos dois "tá demorando muito pra se arrumar! A gente vai pro cinema, não pra um casamento!". Eu gosto muito de rock progressivo, com suas músicas longas, algumas chegando até a mais de 20 minutos de duração. 95% das pessoas que conheço desprezariam tais músicas simplesmente pelo fato de serem "longas demais, eu não consigo ouvir até o fim". A necessidade de urgência que inevitavelmente aflige nossos ambientes de trabalho informatizados infecta os outros campos de nossas vidas, e é exatamente aí que começa o problema.

Eu poderia concluir este texto com pseudo-teorias e divagações filosóficas, mas o ponto onde quero chegar é bem simples: exercitem a paciência. Isso fará bem a você, bem como às pessoas ao seu redor. Tente imaginar como era a vida sem internet e caixas eletrônicos, e em como a convivência humana era algo muito mais aproveitável, pergunte à sua mãe ou seu avô. Se você não encarar o tempo como um amigo, ele se tornará seu pior inimigo.