domingo, 27 de abril de 2008

O mundo ligeiro e suas conseqüências

Certamente você já ouviu este discurso. O mundo globalizado, a sociedade de informação, o crescimento tecnológico, blablablá...mas você já parou pra pensar, de verdade, como isso afeta sua vida? Ou melhor, como você pode ser uma cria desse mundo, se tiver seus 20 anos ou menos?

Eu sou uma pessoa que não tem carro. Principalmente por ainda não ter condições financeiras de manter um sem ter que abrir mão de algumas posturas pessoais. Mas onde quero chegar é que, em muitas vezes que peguei uma carona no carro de amigos e parentes, não consegui deixar de reparar em como muitas pessoas se comportam ouvindo uma estação de rádio. Foram poucas as vezes que ouvi uma música inteira. Na metade de uma música, troca-se de estação a fim de procurar algo melhor, e passando por todas as estações umas 3 vezes seguidas, parece que nada agrada ao ouvinte. A situação se torna ainda mais bagunçada quando várias pessoas estão dentro do carro. É como se ouvir uma música por 3 minutos - e isso porque estou falando de música comercial - fosse uma tarefa que exigisse muita atenção, mais do que uma pessoa comum conseguisse suportar.

Quando vamos abrir nosso e-mail na internet, se a página levar mais de 1 minuto pra carregar já começamos a bufar e cutucar os dedos na mesa. Esperar cinco minutos em uma fila, então, é um castigo que nem o mais vil criminoso mereceria. Sentar em uma sala de espera de um consultório médico é o mesmo que entrar no quarto do Hannibal Lecter. Nós estamos sempre apressados. MUITO apressados. E nessa situação, onde termina a culpa do mundo agilizado pelas facilidades da tecnologia e começa nossa intolerância?

Eu tenho 27 anos, então devo dizer que a maior parte de minha vida já foi vivida nesse contexto das coisas ágeis e de pronta resposta. Mas toda vez que eu vejo uma pessoa xingando a mãe de outro alguém em uma fila pois a mesma não anda e ela "tem mais o que fazer", eu fico me perguntando o que ele tem de tão importante que verdadeiramente não possa esperar mais 2 ou 3 minutos pra fazer. Se hoje condenações por enforcamento ainda fossem de prática comum e o pai do indivíduo fosse um encrenqueiro, eu até acreditaria no dito popular. Mas quase sempre, não é o que acontece.

Tudo isso reflete em nosso comportamento, em nossa espiritualidade e até mesmo em nossa saúde. Casos de ansiedade crônica estão se tornando cada vez mais comuns, conheço pessoas que ficam próximas de um ataque nervoso pelo fato do ônibus estar levando mais de 10 minutos pra aparecer. Casais brigam porque um dos dois "tá demorando muito pra se arrumar! A gente vai pro cinema, não pra um casamento!". Eu gosto muito de rock progressivo, com suas músicas longas, algumas chegando até a mais de 20 minutos de duração. 95% das pessoas que conheço desprezariam tais músicas simplesmente pelo fato de serem "longas demais, eu não consigo ouvir até o fim". A necessidade de urgência que inevitavelmente aflige nossos ambientes de trabalho informatizados infecta os outros campos de nossas vidas, e é exatamente aí que começa o problema.

Eu poderia concluir este texto com pseudo-teorias e divagações filosóficas, mas o ponto onde quero chegar é bem simples: exercitem a paciência. Isso fará bem a você, bem como às pessoas ao seu redor. Tente imaginar como era a vida sem internet e caixas eletrônicos, e em como a convivência humana era algo muito mais aproveitável, pergunte à sua mãe ou seu avô. Se você não encarar o tempo como um amigo, ele se tornará seu pior inimigo.

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