Segredo. sm. 1. O que não pode ser revelado; sigilo. 2. Assunto, manobra, negócio, conhecido só de uns poucos. 3. Confidência. 4. Mistério, enigma.
Toda pessoa tem segredos. Aquele papo de "minha vida é um livro aberto" é uma grande e gorda mentira. Segredos são necessários para o bom convívio. Se todos soubessem de tudo que você faz, ninguém teria interesse pela sua vida, e você provavelmente passaria a maior parte de seu tempo sozinho. É assim que funciona. Por isso que pessoas misteriosas são tão fascinantes. É porque elas guardam muita informação. Área 51, Maçonaria, Cientologia, Lost. Se estas coisas hoje são consideradas interessantes pela maioria das pessoas, é porque há segredos envolvidos. Sempre tem que existir o oposto de algo. Se há o preto, é porque tem o branco. Se houve Einstein, também houve Kléber Bambam. Para um Brad Pitt, temos um Tião Macalé. Se existe a curiosidade, é porque há o segredo.
Nem preciso dizer que soltar um segredo alheio é um ato abominável. Mas há momentos em que você sente a necessidade incontrolável de expelir um segredo seu, por querer compartilhá-lo com um amigo de confiança ou simplesmente porque não consegue se segurar. E quando isso acontece, normalmente a maioria das pessoas comete um erro gravíssimo, que é não analisar os vínculos ao redor. Se o seu segredo é estar apaixonado por uma pessoa e tem a necessidade de falar disso com alguém, não escolha o(a) melhor amigo(a) desta pessoa. Se você quer fazer uma surpresa para um amigo, não conte para a namorada ou esposa dele. Sabe por quê? Porque estas pessoas tem vínculos maiores com o alvo do que você, e elas não acharão justo guardar de uma pessoa tão querida uma informação tão importante. Ou seja, seu segredo provavelmente vazará, e a culpa é toda sua.
Há motivos mil para se criar um segredo, mas o principal é o medo. Medo de que deixem de gostar de você por causa de tal segredo, medo de causar discórdia entre as pessoas, de se perder bens materiais, de se tornar alvo de opinião pública e conversas maliciosas, e assim vai. E o mais engraçado é que esses motivos que prendem um segredo quase sempre são os mesmos que se usam para soltá-lo.
E isso torna bastante difícil gerenciar um segredo, por ser um grandioso instrumento social. Segredos podem trazer pessoas para perto de você, como também afastá-las. É uma ferramenta de poder. Se você guarda todos os segredos que ouve ao mesmo tempo em que guarda todos os seus, meus parabéns. Você tem o mundo em suas mãos.
Eu até gostaria de dar algumas dicas de como você pode conseguir fazer isso. Mas não posso. É segredo.
sábado, 24 de maio de 2008
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O apogeu do preconceito
Na astronomia, chama-se de zênite o ponto mais alto que um corpo celeste atinge em sua órbita, a partir da vista do observador. É o seu apogeu. Significado que justifica perfeitamente o atual momento do Zenit St. Petesburgh, time de futebol russo que venceu nesta semana o Glasgow Rangers na final da Copa da UEFA, o segundo torneio mais significativo da Europa. Time modesto, sem tradição, que graças a altos investimentos financeiros e um ótimo técnico, é hoje um dos times mais falados no universo do futebol. Mas não é só por isso que andam falando dele.
Estamos falando de um time cuja torcida é racista. Se hoje o plantel de jogadores é composto unicamente de brancos, é porque seus torcedores não aceitariam a entrada de um jogador negro, fato assumido pelo treinador do Zenit, Dick Advocaat. "Eu ficaria feliz em poder contratar qualquer jogador, mas a torcida não gosta de negros. Honestamente, eu não sei porque se importam tanto com a cor da pele", afirmou em uma coletiva de imprensa. E o comentário que circula é que a atitude racista também parte de membros da diretoria do clube, mesmo que seus assessores de imprensa neguem a todo custo.
Pra aumentar a salada, tudo isso está acontecendo em dias de uma forte política anti-racista por parte da UEFA, que faz questão de exibir cartazes e mais cartazes em jogos importantes do circuito europeu, e espalhar a mensagem por todos os veículos de mídia possíveis. Sendo assim, como podem então permitir que um time cuja torcida é assumidamente racista participar de uma final de um torneio tão importante, e não tomar atitude alguma? Pois atos ofensivos já foram testemunhados no mesmo torneio, nos jogos do Zenit contra o Olympique de Marselha, que tem jogadores negros. Coisas extremamente ignorantes e grotescas, como por exemplo, imitar o som de macacos.
E a situação inevitavelmente fere a imagem de um time batalhador, que mesmo sendo considerado um dos patinhos feios no início da competição, cresceu como um colosso ao longo dela, goleando times muito superiores - como o atualmente devastador Bayern de Munique -, chegando à final e a vencendo. Isso sem contar com grandes estrelas do futebol mundial. Não há um nome ali que chame a atenção do ouvinte casual. O que tornou o Zenit campeão foi, de fato, uma equipe bem montada e um ímpeto enorme de vencer. Mas também é um time jovem, que tem receio de entrar em conflito com sua nova grande torcida e perder esse rico apoio, mesmo que seja um apoio descaradamente racista.
É provável que no final desta temporada o Zenit recrute jogadores negros para afastar toda essa nuvem de afirmações de cunho racial. Se isso não acontecer, infelizmente, vai ser a confirmação de que o clube compactua com a torcida, ponto para a estupidez e a arrogância. Eu bem que poderia fechar esse texto com alguma piadinha, mas a coisa toda é tão lamentável que nem dá.
Estamos falando de um time cuja torcida é racista. Se hoje o plantel de jogadores é composto unicamente de brancos, é porque seus torcedores não aceitariam a entrada de um jogador negro, fato assumido pelo treinador do Zenit, Dick Advocaat. "Eu ficaria feliz em poder contratar qualquer jogador, mas a torcida não gosta de negros. Honestamente, eu não sei porque se importam tanto com a cor da pele", afirmou em uma coletiva de imprensa. E o comentário que circula é que a atitude racista também parte de membros da diretoria do clube, mesmo que seus assessores de imprensa neguem a todo custo.
Pra aumentar a salada, tudo isso está acontecendo em dias de uma forte política anti-racista por parte da UEFA, que faz questão de exibir cartazes e mais cartazes em jogos importantes do circuito europeu, e espalhar a mensagem por todos os veículos de mídia possíveis. Sendo assim, como podem então permitir que um time cuja torcida é assumidamente racista participar de uma final de um torneio tão importante, e não tomar atitude alguma? Pois atos ofensivos já foram testemunhados no mesmo torneio, nos jogos do Zenit contra o Olympique de Marselha, que tem jogadores negros. Coisas extremamente ignorantes e grotescas, como por exemplo, imitar o som de macacos.
E a situação inevitavelmente fere a imagem de um time batalhador, que mesmo sendo considerado um dos patinhos feios no início da competição, cresceu como um colosso ao longo dela, goleando times muito superiores - como o atualmente devastador Bayern de Munique -, chegando à final e a vencendo. Isso sem contar com grandes estrelas do futebol mundial. Não há um nome ali que chame a atenção do ouvinte casual. O que tornou o Zenit campeão foi, de fato, uma equipe bem montada e um ímpeto enorme de vencer. Mas também é um time jovem, que tem receio de entrar em conflito com sua nova grande torcida e perder esse rico apoio, mesmo que seja um apoio descaradamente racista.
É provável que no final desta temporada o Zenit recrute jogadores negros para afastar toda essa nuvem de afirmações de cunho racial. Se isso não acontecer, infelizmente, vai ser a confirmação de que o clube compactua com a torcida, ponto para a estupidez e a arrogância. Eu bem que poderia fechar esse texto com alguma piadinha, mas a coisa toda é tão lamentável que nem dá.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Certo e errado?
A igreja neopentescostal Renascer em Cristo é uma presença constante na pauta dos jornais escritos e falados do país nos dois últimos anos. Seu casal fundador, Estevam e Sônia Hernandes, responde por várias acusações judiciais, entre elas falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Isso não é novidade pra ninguém, como também não é a situação parecida que ocorreu há mais de 10 anos atrás, com o Pr. Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Graças a estas duas principais ocorrências, a imagem do cristão evangélico brasileiro não é das melhores, sem contar outras aberrações que circulam ou já circularam na mídia nacional.
Pelo visto, muita gente não se importa com o fato de seus mentores espirituais serem criminosos. É uma igreja movimentada, com mais de dois milhões de membros. E sem dúvida seu membro mais famoso é Ricardo Izecson dos Santos Leite, que atende pelo apelido de Kaká. Sempre que tem a oportunidade, Ricardo assume sua ligação com a Renascer em Cristo em entrevistas.
Eu respeito muito o Ricardo. É um baita jogador de futebol, tanto que foi eleito o melhor do mundo em 2007, tanto pela FIFA quanto pela revista francesa France Football, que anualmente entrega um prêmio semelhante ao da FIFA - porém mais significativo. Visivelmente é um rapaz que teve uma boa educação familiar e cristã, e demonstra isso no seu comportamento dentro e fora de campo. Já teve problemas sérios de saúde, que foram superados. Um atleta-modelo, e um legítimo vencedor aos olhos do mundo.
Às vezes, como cristãos, nos sentimos constrangidos de falar o que somos e assumir posturas concretas em certos contextos sociais, pois sabemos que isso vai gerar algum desconforto. Traços de insegurança e comodismo, heranças de nossa natureza humana. Ricardo não esconde sua fé em Deus. Pelo contrário, ele a mostra para o mundo inteiro, seja em gestos, camisetas ou falas. E isso é muito bonito, um exemplo a ser seguido. Mas, infelizmente, Ricardo não é muito esperto.
Imaginemos o grande Kaká visto por algum de seus jovens fãs em alguma outra parte do mundo, que assiste todos seus jogos e procure todo tipo de informação a respeito dele. Ao ver sua comemoração após o fim do jogo da conquista da Copa dos Campeões pelo Milan, lê uma mensagem escrita em inglês na camiseta branca por baixo do uniforme, que o jogador exibe com orgulho. Talvez ele não fale inglês, então depois de pesquisar na internet ou conversar com alguma outra pessoa, descobre que a mensagem significa "Eu pertenço a Jesus". "Bom, então Kaká é cristão? Que interessante!", pensa ele. Dias depois, o mesmo rapaz lê em um site que o grande Kaká foi chamado para inquérito pelo Ministério Público de seu país por estar relacionado a uma igreja cujos líderes estão sendo acusados de vários crimes. "Mas peraí, ele não é cristão? Como pode estar ligado a esses caras? Meu ídolo é um hipócrita?"
Ricardo talvez não pense nisso. Ele talvez não se dê conta de que está contribuindo em larga escala para o desvirtuamento da fé cristã. Por mais legítima que seja sua crença e seus atos, ele está conscientemente vinculado à pessoas que de forma alguma podem ser chamadas de cristãs, e contribuindo para que se alicerce cada vez mais o senso comum de que "crente é tudo pilantra". O que deixa no ar um dilema do qual realmente não sei dar uma opinião definitiva. A visão positiva de suas atitudes ofusca a negativa, ao mesmo tempo que basta um mínimo de bom senso para realizar que estar associado ao casal Hernandes é sinônimo de conformidade com o ilícito. Com que postura pode se confrontar alguém por fazer a coisa certa, tão certa, mas do jeito errado?
Pelo visto, muita gente não se importa com o fato de seus mentores espirituais serem criminosos. É uma igreja movimentada, com mais de dois milhões de membros. E sem dúvida seu membro mais famoso é Ricardo Izecson dos Santos Leite, que atende pelo apelido de Kaká. Sempre que tem a oportunidade, Ricardo assume sua ligação com a Renascer em Cristo em entrevistas.
Eu respeito muito o Ricardo. É um baita jogador de futebol, tanto que foi eleito o melhor do mundo em 2007, tanto pela FIFA quanto pela revista francesa France Football, que anualmente entrega um prêmio semelhante ao da FIFA - porém mais significativo. Visivelmente é um rapaz que teve uma boa educação familiar e cristã, e demonstra isso no seu comportamento dentro e fora de campo. Já teve problemas sérios de saúde, que foram superados. Um atleta-modelo, e um legítimo vencedor aos olhos do mundo.
Às vezes, como cristãos, nos sentimos constrangidos de falar o que somos e assumir posturas concretas em certos contextos sociais, pois sabemos que isso vai gerar algum desconforto. Traços de insegurança e comodismo, heranças de nossa natureza humana. Ricardo não esconde sua fé em Deus. Pelo contrário, ele a mostra para o mundo inteiro, seja em gestos, camisetas ou falas. E isso é muito bonito, um exemplo a ser seguido. Mas, infelizmente, Ricardo não é muito esperto.
Imaginemos o grande Kaká visto por algum de seus jovens fãs em alguma outra parte do mundo, que assiste todos seus jogos e procure todo tipo de informação a respeito dele. Ao ver sua comemoração após o fim do jogo da conquista da Copa dos Campeões pelo Milan, lê uma mensagem escrita em inglês na camiseta branca por baixo do uniforme, que o jogador exibe com orgulho. Talvez ele não fale inglês, então depois de pesquisar na internet ou conversar com alguma outra pessoa, descobre que a mensagem significa "Eu pertenço a Jesus". "Bom, então Kaká é cristão? Que interessante!", pensa ele. Dias depois, o mesmo rapaz lê em um site que o grande Kaká foi chamado para inquérito pelo Ministério Público de seu país por estar relacionado a uma igreja cujos líderes estão sendo acusados de vários crimes. "Mas peraí, ele não é cristão? Como pode estar ligado a esses caras? Meu ídolo é um hipócrita?"
Ricardo talvez não pense nisso. Ele talvez não se dê conta de que está contribuindo em larga escala para o desvirtuamento da fé cristã. Por mais legítima que seja sua crença e seus atos, ele está conscientemente vinculado à pessoas que de forma alguma podem ser chamadas de cristãs, e contribuindo para que se alicerce cada vez mais o senso comum de que "crente é tudo pilantra". O que deixa no ar um dilema do qual realmente não sei dar uma opinião definitiva. A visão positiva de suas atitudes ofusca a negativa, ao mesmo tempo que basta um mínimo de bom senso para realizar que estar associado ao casal Hernandes é sinônimo de conformidade com o ilícito. Com que postura pode se confrontar alguém por fazer a coisa certa, tão certa, mas do jeito errado?
quarta-feira, 7 de maio de 2008
O mundo vai acabar daqui a dois meses
E nem estou me referindo a uma profecia de Nostradamus ou de alguma seita maluca. Muito menos aos 4 Cavaleiros do Apocalipse ou a Terceira Guerra Mundial. O grande agente destruidor de nosso mundo como o conhecemos dessa vez se chama Bóson de Higgs. Estou falando de uma mera partícula, que talvez nem exista. Mas se ela resolver dar as caras, poderia nos trazer alguns probleminhas, mesmo que as chances disso sejam bem reduzidas.
A mais de 150 metros abaixo da superfície, em uma porção de terra que se divide entre França e Suíça, existe algo que seria digno de fazer parte das 7 novas maravilhas do mundo. O Grande Colisor de Hádrons, ou simplesmente LHC. Trata-se do maior acelerador de partículas do mundo, com seus 27 quilômetros (!!) de circunferência. Um acelerador de partículas, como o nome já sugere, é um dispositivo que usa campos elétricos para propelir partículas carregadas a uma altíssima velocidade, fazendo isso em um ambiente controlado. Isso possibilita a análise e estudo destas partículas, levando à compreensão de suas origens e aplicações. E nos estudos atuais da Física, o bóson de Higgs é uma das peças mais intrigantes.
Eu, sem dúvida alguma, não sou a melhor pessoa pra explicar a parte complicada. Mas vou tentar.
O tal do bóson, glamurosamente apelidado de God Particle, teoricamente daria as respostas às principais questões que justificam o salário de boa parte de nossos queridos cientistas, bem como consolidaria definitivamente os padrões da Física contemporânea. Entre estas perguntas, as mais importantes são:
1) Por que a gravidade é bem mais fraca que as outras forças fundamentais (eletromagnetismo e força nuclear)?
2) As medidas mais precisas da massa dos quarks continuariam a ser consistentes em relação ao que vemos no padrão atual?
3) Por que há aparentes quebras de simetria entre matéria e antimatéria?
4) Qual a natureza da matéria escura?
5) Vai ter "Rambo 5"?
Essas indagações tiram meu sono e fazem de minha vida um verdadeiro inferno de incertezas desde que eu era um bebê banguela e chorão, e FINALMENTE terei paz em meu coração após todas estas perguntas, entre muitas outras, serem respondidas. Isso se eu - e você - não nos transformarmos em um cocô intergaláctico segundos depois.
Para que o lindo, charmoso e instigante bóson de Higgs dê o ar de sua graça em um terno Armani feito sob medida, o LHC precisa gerar uma quantidade cagalhônica de energia, aproximadamente 10 gigajoules, o equivalente a uma detonação de duas toneladas e meia de TNT. Mas esse é o menor dos problemas, pelo menos para nós, que estamos bem longe da França/Suíça. O que realmente vem inquietando muita gente é que, ao se ligar o aparelhozinho, ele dê origem a micro-buracos negros, ou matérias desconhecidas chamadas de strangelets. Estes strangelets podem entrar em fusão e se tornarem mais estáveis que a matéria ordinária, transformando todo o planeta em uma grande bola de nada.
Mesmo que boa parte dos cientistas mais conceituados de nossa sociedade digam que as chances disso acontecer são mínimas, não há fiofó que não dê uma trancadinha, ainda mais quando se tem noção da magnitude de todo o projeto. Sir Martin Rees, renomado astrofísico inglês, afirmou que a chance de uma catástrofe definitiva acontecer é de uma em 50 milhões. Só que há um problema, senhor cientista espertão-do-bigodão: nós não estamos falando das chances de Cristiano Ronaldo fazer um gol contra na final da Champions League, ou do Metallica voltar a tocar metal de verdade. Estamos falando da INTEGRIDADE FÍSICA de todo o planeta, ou seja, nesse caso, uma chance em 50 milhões ainda é MUITO!
O LHC iria ser ativado agora em maio, mas devido a incidentes técnicos, nós só vamos ser pulverizados em julho. Ainda dá tempo de roubar um banco, seqüestrar a Scarlett Johansson e completar minha coleção do Rush.
NOTA RECENTE: nossa pulverização foi adiada mais algumas vezes. Na última vez (nov/2009), um dos eletroimãs refrigeradores do LHC entrou em curto porque um passarinho que veio do futuro tentou boicotar o projeto jogando um pedaço de baguete em cima dele. Humanidade, ouça o aviso do passarinho.
A mais de 150 metros abaixo da superfície, em uma porção de terra que se divide entre França e Suíça, existe algo que seria digno de fazer parte das 7 novas maravilhas do mundo. O Grande Colisor de Hádrons, ou simplesmente LHC. Trata-se do maior acelerador de partículas do mundo, com seus 27 quilômetros (!!) de circunferência. Um acelerador de partículas, como o nome já sugere, é um dispositivo que usa campos elétricos para propelir partículas carregadas a uma altíssima velocidade, fazendo isso em um ambiente controlado. Isso possibilita a análise e estudo destas partículas, levando à compreensão de suas origens e aplicações. E nos estudos atuais da Física, o bóson de Higgs é uma das peças mais intrigantes.
Eu, sem dúvida alguma, não sou a melhor pessoa pra explicar a parte complicada. Mas vou tentar.
O tal do bóson, glamurosamente apelidado de God Particle, teoricamente daria as respostas às principais questões que justificam o salário de boa parte de nossos queridos cientistas, bem como consolidaria definitivamente os padrões da Física contemporânea. Entre estas perguntas, as mais importantes são:
1) Por que a gravidade é bem mais fraca que as outras forças fundamentais (eletromagnetismo e força nuclear)?
2) As medidas mais precisas da massa dos quarks continuariam a ser consistentes em relação ao que vemos no padrão atual?
3) Por que há aparentes quebras de simetria entre matéria e antimatéria?
4) Qual a natureza da matéria escura?
5) Vai ter "Rambo 5"?
Essas indagações tiram meu sono e fazem de minha vida um verdadeiro inferno de incertezas desde que eu era um bebê banguela e chorão, e FINALMENTE terei paz em meu coração após todas estas perguntas, entre muitas outras, serem respondidas. Isso se eu - e você - não nos transformarmos em um cocô intergaláctico segundos depois.
Para que o lindo, charmoso e instigante bóson de Higgs dê o ar de sua graça em um terno Armani feito sob medida, o LHC precisa gerar uma quantidade cagalhônica de energia, aproximadamente 10 gigajoules, o equivalente a uma detonação de duas toneladas e meia de TNT. Mas esse é o menor dos problemas, pelo menos para nós, que estamos bem longe da França/Suíça. O que realmente vem inquietando muita gente é que, ao se ligar o aparelhozinho, ele dê origem a micro-buracos negros, ou matérias desconhecidas chamadas de strangelets. Estes strangelets podem entrar em fusão e se tornarem mais estáveis que a matéria ordinária, transformando todo o planeta em uma grande bola de nada.
Mesmo que boa parte dos cientistas mais conceituados de nossa sociedade digam que as chances disso acontecer são mínimas, não há fiofó que não dê uma trancadinha, ainda mais quando se tem noção da magnitude de todo o projeto. Sir Martin Rees, renomado astrofísico inglês, afirmou que a chance de uma catástrofe definitiva acontecer é de uma em 50 milhões. Só que há um problema, senhor cientista espertão-do-bigodão: nós não estamos falando das chances de Cristiano Ronaldo fazer um gol contra na final da Champions League, ou do Metallica voltar a tocar metal de verdade. Estamos falando da INTEGRIDADE FÍSICA de todo o planeta, ou seja, nesse caso, uma chance em 50 milhões ainda é MUITO!
O LHC iria ser ativado agora em maio, mas devido a incidentes técnicos, nós só vamos ser pulverizados em julho. Ainda dá tempo de roubar um banco, seqüestrar a Scarlett Johansson e completar minha coleção do Rush.
NOTA RECENTE: nossa pulverização foi adiada mais algumas vezes. Na última vez (nov/2009), um dos eletroimãs refrigeradores do LHC entrou em curto porque um passarinho que veio do futuro tentou boicotar o projeto jogando um pedaço de baguete em cima dele. Humanidade, ouça o aviso do passarinho.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
"Paizinho" e "Sweet Baby Jesus"
Se você freqüenta uma igreja, talvez já tenha ouvido alguém se referir a Deus como "Paizinho" em uma oração. Se não ouviu, são grandes as chances de isso acontecer um dia. E sempre que ouço, não consigo deixar de achar esquisito.
Sem dúvida isso surgiu como uma maneira mais carinhosa de se falar com Deus. Creio que seja válido, e de modo algum se torne algo que interfira na vida espiritual de quem assim o faz. É válido, mas também inapropriado. É tão inapropriado quanto um réu chegar pra um juiz e chamá-lo de "tio". Claro que, nesse caso, geraria uma represália imediata. No final das contas, simplesmente não consigo deixar isso passar despercebido. Ainda mais pra mim, pois ao ouvir essa expressão, o que me vem à mente é um velho barrigudo deitado em uma rede, tomando uma Coca e lendo jornal.
Mas não é o tipo de coisa que, a meu ver, gera discussões prolongadas. O que não se pode dizer do equivalente norte-americano do "Paizinho", o "Sweet Baby Jesus". Esse sim, é bizarro.
Sim, Jesus quando bebê já era o Filho de Deus. Mas era um bebê. Não engatinhava pelas ruas curando doentes e pregando sermões. Então o intento de se orar a Jesus enqüanto ele ainda tinhas poucas preocupações no colo de sua mãe não é algo que pode se chamar de normal. Tanto que isso foi satirizado no filme Talladega Nights (ou, se preferir, Ricky Bobby A Toda Velocidade), com Will Ferrell. É um de seus filmes mais engraçados, talvez só perca para O Âncora, sua obra máxima. Seu personagem, Ricky Bobby, um ignorante piloto da NASCAR - assim como a maioria deles - está na mesa prestes a tomar o café da manhã com a família quando sua esposa o pede para fazer uma oração de agradecimento. Então ele vai orando e divagando quanto ao Bebê Jesus, que está "em sua manjedoura, assistindo seus vídeos educativos, aprendendo novas cores e formas", etc. Pode parecer gratuito, mas tem suas origens. Da mesma forma que aqui o "Paizinho" é digno de levantar algumas sobrancelhas, lá na América de cima o "Sweet Baby Jesus" incomoda alguns cristãos. Talvez mais do que aqui.
E poderia ser bem pior. Ainda não ouvi nenhum "Papi".
Sem dúvida isso surgiu como uma maneira mais carinhosa de se falar com Deus. Creio que seja válido, e de modo algum se torne algo que interfira na vida espiritual de quem assim o faz. É válido, mas também inapropriado. É tão inapropriado quanto um réu chegar pra um juiz e chamá-lo de "tio". Claro que, nesse caso, geraria uma represália imediata. No final das contas, simplesmente não consigo deixar isso passar despercebido. Ainda mais pra mim, pois ao ouvir essa expressão, o que me vem à mente é um velho barrigudo deitado em uma rede, tomando uma Coca e lendo jornal.
Mas não é o tipo de coisa que, a meu ver, gera discussões prolongadas. O que não se pode dizer do equivalente norte-americano do "Paizinho", o "Sweet Baby Jesus". Esse sim, é bizarro.
Sim, Jesus quando bebê já era o Filho de Deus. Mas era um bebê. Não engatinhava pelas ruas curando doentes e pregando sermões. Então o intento de se orar a Jesus enqüanto ele ainda tinhas poucas preocupações no colo de sua mãe não é algo que pode se chamar de normal. Tanto que isso foi satirizado no filme Talladega Nights (ou, se preferir, Ricky Bobby A Toda Velocidade), com Will Ferrell. É um de seus filmes mais engraçados, talvez só perca para O Âncora, sua obra máxima. Seu personagem, Ricky Bobby, um ignorante piloto da NASCAR - assim como a maioria deles - está na mesa prestes a tomar o café da manhã com a família quando sua esposa o pede para fazer uma oração de agradecimento. Então ele vai orando e divagando quanto ao Bebê Jesus, que está "em sua manjedoura, assistindo seus vídeos educativos, aprendendo novas cores e formas", etc. Pode parecer gratuito, mas tem suas origens. Da mesma forma que aqui o "Paizinho" é digno de levantar algumas sobrancelhas, lá na América de cima o "Sweet Baby Jesus" incomoda alguns cristãos. Talvez mais do que aqui.
E poderia ser bem pior. Ainda não ouvi nenhum "Papi".
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