terça-feira, 13 de maio de 2008

Certo e errado?

A igreja neopentescostal Renascer em Cristo é uma presença constante na pauta dos jornais escritos e falados do país nos dois últimos anos. Seu casal fundador, Estevam e Sônia Hernandes, responde por várias acusações judiciais, entre elas falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Isso não é novidade pra ninguém, como também não é a situação parecida que ocorreu há mais de 10 anos atrás, com o Pr. Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Graças a estas duas principais ocorrências, a imagem do cristão evangélico brasileiro não é das melhores, sem contar outras aberrações que circulam ou já circularam na mídia nacional.

Pelo visto, muita gente não se importa com o fato de seus mentores espirituais serem criminosos. É uma igreja movimentada, com mais de dois milhões de membros. E sem dúvida seu membro mais famoso é Ricardo Izecson dos Santos Leite, que atende pelo apelido de Kaká. Sempre que tem a oportunidade, Ricardo assume sua ligação com a Renascer em Cristo em entrevistas.

Eu respeito muito o Ricardo. É um baita jogador de futebol, tanto que foi eleito o melhor do mundo em 2007, tanto pela FIFA quanto pela revista francesa France Football, que anualmente entrega um prêmio semelhante ao da FIFA - porém mais significativo. Visivelmente é um rapaz que teve uma boa educação familiar e cristã, e demonstra isso no seu comportamento dentro e fora de campo. Já teve problemas sérios de saúde, que foram superados. Um atleta-modelo, e um legítimo vencedor aos olhos do mundo.

Às vezes, como cristãos, nos sentimos constrangidos de falar o que somos e assumir posturas concretas em certos contextos sociais, pois sabemos que isso vai gerar algum desconforto. Traços de insegurança e comodismo, heranças de nossa natureza humana. Ricardo não esconde sua fé em Deus. Pelo contrário, ele a mostra para o mundo inteiro, seja em gestos, camisetas ou falas. E isso é muito bonito, um exemplo a ser seguido. Mas, infelizmente, Ricardo não é muito esperto.

Imaginemos o grande Kaká visto por algum de seus jovens fãs em alguma outra parte do mundo, que assiste todos seus jogos e procure todo tipo de informação a respeito dele. Ao ver sua comemoração após o fim do jogo da conquista da Copa dos Campeões pelo Milan, lê uma mensagem escrita em inglês na camiseta branca por baixo do uniforme, que o jogador exibe com orgulho. Talvez ele não fale inglês, então depois de pesquisar na internet ou conversar com alguma outra pessoa, descobre que a mensagem significa "Eu pertenço a Jesus". "Bom, então Kaká é cristão? Que interessante!", pensa ele. Dias depois, o mesmo rapaz lê em um site que o grande Kaká foi chamado para inquérito pelo Ministério Público de seu país por estar relacionado a uma igreja cujos líderes estão sendo acusados de vários crimes. "Mas peraí, ele não é cristão? Como pode estar ligado a esses caras? Meu ídolo é um hipócrita?"

Ricardo talvez não pense nisso. Ele talvez não se dê conta de que está contribuindo em larga escala para o desvirtuamento da fé cristã. Por mais legítima que seja sua crença e seus atos, ele está conscientemente vinculado à pessoas que de forma alguma podem ser chamadas de cristãs, e contribuindo para que se alicerce cada vez mais o senso comum de que "crente é tudo pilantra". O que deixa no ar um dilema do qual realmente não sei dar uma opinião definitiva. A visão positiva de suas atitudes ofusca a negativa, ao mesmo tempo que basta um mínimo de bom senso para realizar que estar associado ao casal Hernandes é sinônimo de conformidade com o ilícito. Com que postura pode se confrontar alguém por fazer a coisa certa, tão certa, mas do jeito errado?

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